Arte Core 2026 no MAM Rio
No fim de agosto, a marquise curva do MAM virou pista de skate ao mesmo tempo em que um mural coletivo crescia na parede ao lado e um DJ tocava só vinil pra quem passava. Não é a primeira vez que isso acontece ali, mas em 2026 aconteceu de novo, com mais gente e mais nome de peso do que em anos anteriores. O evento se chama Arte Core, ocupou o Museu de Arte Moderna do Rio nos dias 29 e 30 de agosto, com uma feira nova abrindo já na sexta, dia 28. Entrada gratuita, classificação livre, ingresso só de retirar no Sympla.
Caminhar pelo museu naquele fim de semana era uma experiência estranha de reconhecer, tudo ali é feito de concreto e vidro, um projeto pensado nos anos 1950 pra abrigar quadro e escultura em silêncio, e mesmo assim o espaço absorveu sem esforço o barulho de roda de skate no chão, o cheiro de spray, a fila pra oficina de colagem. Nada daquilo parecia forçado ou fora de lugar, o que já diz alguma coisa sobre o próprio prédio.
O museu que também é rampa
Faz sentido que o Arte Core escolha o MAM como casa. O prédio de Affonso Eduardo Reidy, projetado com Carmen Portinho ao longo dos anos 1950 e 1960, é uma das obras mais importantes do modernismo carioca, mas a marquise de concreto que sustenta o volume principal virou, décadas atrás, pista de skate por conta própria, sem que ninguém precisasse decidir isso num projeto. É um dos poucos lugares do Rio onde arquitetura de museu e cultura de rua já convivem há tempo, sem que uma precise ceder espaço pra outra. O festival não inventa esse encontro, só formaliza uma coisa que a cidade já fazia sozinha.
Treze anos, nona edição
2026 marcou a nona edição do Arte Core, que voltou ao Rio depois de cinco anos parado. Ao longo de treze anos de história, o festival ajudou a projetar nomes que hoje circulam bem além da cena de rua, como Fefe Talavera, Speto, Zéh Palito, Mulambo e Maxwell Alexandre, entre outros. É um histórico que dá peso ao retorno: não é uma marca nova tentando validação, é uma que já formou parte do que se entende hoje por arte urbana brasileira.
O tempo como fio condutor
A curadoria de 2026 escolheu o tempo como tema da edição: um olhar sobre processo, presença e criação humana em meio à velocidade da produção e do consumo contemporâneos. A proposta era celebrar exatamente aquilo que não cabe no imediatismo, o fazer, a tentativa, o erro, a conversa, o ensaio, a convivência. É uma escolha curatorial que conversa direto com um instinto que venho notando em vários cantos da cultura agora, o de valorizar de novo o rastro visível da mão e do tempo gasto, bem no momento em que ficou mais fácil do que nunca produzir imagem sem nenhum dos dois.
Uma feira nova, a Arte Craft
A grande novidade de 2026 foi a Arte Craft, feira que ocupou a Varanda do MAM a partir de sexta-feira, reunindo artistas, coletivos, galerias, editoras e iniciativas independentes com foco em trabalho impresso. É um formato que aproxima quem faz de quem compra sem o filtro costumeiro de uma galeria tradicional, mais parecido com uma feira de zine do que com um vernissage. Faz sentido que essa novidade tenha entrado justo na edição do “tempo”: impresso é um dos meios onde o processo continua visível na peça final, dobra, corte, tiragem limitada, tudo isso carrega o gesto de quem fez.
Arte, oficina, música, skate
A curadoria de artes visuais reuniu nomes de fora e dentro do Rio, como Amanda Nunes e Gugie Cavalcanti, do Distrito Federal, Charles Lessa, do Ceará, Robinho Santana, de São Paulo, e um grupo forte de artistas cariocas como Conativo, Dolores Esos, Matheus Abu, Thaís Iroko e Alberto Pereira, representado pela Aborda. Foi a terceira vez que ele apresenta trabalho no festival, dessa edição com “Dormir na sombra e pendurar as chuteiras”, retrato de alguém dormindo num banco de praça que ganha um par de pepinos sobre os olhos até virar personagem digno de exposição num museu de arte moderna. Ele brinca com ditado popular, deitar na sombra, ter um pepino, pendurar as chuteiras, pra tratar do descanso como desejo, necessidade ou utopia, dentro de uma pesquisa mais longa dele sobre a fronteira entre o material e o virtual.
No mesmo fim de semana, Luna Bastos assinou um dos murais principais, “Quantas faces de si em si mesma?”, partindo do pensamento de Beatriz Nascimento pra falar de identidade, memória e as camadas que atravessam a construção de si. As oficinas, abertas ao público, passaram por desenho, colagem, grafite, pintura de painel coletivo e até pintura experimental com giz oleoso, conduzidas por nomes como Marcelo Macedo e Bruno Big, que também levou mesa própria, ao lado de Lev, na feira Arte Craft.
Um dos projetos mais bonitos da edição foi o Portas Abertas, que reuniu trabalho de 36 artistas periféricos e de grupos historicamente à margem do circuito de arte, dando espaço real pra potência criativa que normalmente fica fora do museu, dentro do museu. Ao lado disso, o público podia intervir com grafite direto num estande montado pra isso, sem precisar de autorização especial ou nome já feito. Teve também o espaço da Pool Jeans, marca da Riachuelo que apresentou essa volta do festival ao Rio, funcionando como ponto de doação e customização de peças de jeans usadas, o mesmo espírito de reaproveitar em vez de descartar que dava o tom da edição inteira.
A trilha sonora ficou por conta de Daniel Tamenpi, curando DJs que tocaram o fim de semana inteiro só com vinil, além de um show do BNegão e um pocket show gratuito do FBC no domingo à noite. Junto com o skate correndo solto pela rampa, o festival conseguiu algo difícil, fazer artes visuais, música e esporte de rua ocuparem o mesmo espaço sem que um vire pano de fundo do outro.
O que fica, pra mim
O que mais me marcou foi ver a arquitetura de Reidy sendo usada exatamente como deveria, como espaço vivo, não como fundo bonito pra foto. Um museu de arte moderna que também é pista de skate resolve, sem discurso nenhum, uma discussão que às vezes trato aqui de forma mais teórica, a de que projeto bom não é o que fica intocado, é o que aguenta ser usado de verdade e ainda assim continua de pé, curva e leve, décadas depois de erguido. O Arte Core não precisou explicar isso. Só precisou abrir as portas de sexta a domingo e deixar a cidade fazer o resto.








