ArtRio 2026: sete obras de cinco artistas que vi na Marina da Glória

Em 2021, atravessei a ArtRio de máscara. Era uma edição em meio à pandemia, e eu passava de galeria em galeria com o rosto ainda coberto. Aquela foi a minha despedida do Brasil: dali em diante seriam cinco anos em Portugal.
Voltei agora, cinco anos depois. A 16ª edição da feira aconteceu de 16 a 20 de setembro, na Marina da Glória, com 78 galerias. Andei por ela de rosto descoberto, e o que encontrei foi o que sempre encontro: a qualidade que as galerias entregam me surpreende a cada edição, e o público continua sendo dos melhores, porque sempre esbarro em amigos, artistas ou apaixonados por arte, gente com quem a conversa começa no meio.
Uma visita guiada e outras tantas
No sábado, dia 19, fui à feira com a turma de design de interiores da Candido Mendes de Ipanema, da qual hoje faço parte. A visita foi guiada pelo professor Alexandre Monteiro, arquiteto e artista. Voltei à ArtRio em outros dias também, porque uma feira desse tamanho pede mais de uma passagem.
Os nomes que sempre me fazem parar
Há artistas diante de quem eu paro em qualquer feira. Volpi, Portinari e Dias sempre me encantam. Beatriz Milhazes e Vik Muniz eu ouvi, no último Rio Innovation Week, debatendo a arte brasileira. Adriana Varejão está nessa lista também. Vhils conheci e estudei com mais profundidade nos anos em que morei em Portugal, e lá veio uma surpresa: descobri que ele era padrinho do meu vizinho de apartamento em Lisboa. E há as esculturas de Amilcar de Castro e de Franz Weissmann, que sempre me encantam.
Mas quero falar de outras obras. Fotografei sete, de cinco artistas, e conto aqui o que encontrei sobre cada um.
Anish Kapoor, na Galeria Continua

Um disco de espelho vermelho, pendurado numa parede branca, e dentro dele a sala inteira de cabeça para baixo: pessoas de pernas para o ar, a escada invertida, o teto no lugar do chão. O espelho é côncavo, e essa curvatura vira o mundo do avesso para quem está diante dele. Quem se aproxima passa a fazer parte da imagem, e a própria galeria vira o assunto da obra.
Anish Kapoor nasceu em Mumbai, em 1954, e vive em Londres desde meados dos anos 1970. Estudou no Hornsey College of Art e no Chelsea School of Art, ganhou o Turner Prize em 1991 e o Praemium Imperiale de escultura em 2011. Segundo a biografia publicada pela Galleria Continua, o centro do trabalho dele é o vazio, o instante em que um buraco deixa de ser buraco e se torna um espaço cheio do que não está ali. Os espelhos são uma das formas mais conhecidas disso: o Cloud Gate, em Chicago, e o Sky Mirror, em Nova York, cuja face côncava, voltada para o céu, devolve o arranha-céu do Rockefeller Center de cabeça para baixo.
Di Cavalcanti, na Pinakotheke

Duas telas penduradas uma sobre a outra, em molduras de madeira escura. Na de cima, vertical, rostos se sobrepõem em planos de cor: uma máscara escura à esquerda, uma face pálida ao centro, o olhar de uma mulher à direita, e ao fundo o desenho de fachadas e torres. Na de baixo, horizontal, as figuras se dividem em blocos de amarelo, laranja, verde e azul.
Emiliano Di Cavalcanti nasceu no Rio de Janeiro em 1897 e começou a carreira como ilustrador da revista Fon-Fon. Em 1922, assinou o catálogo e o programa da Semana de Arte Moderna, em São Paulo (há um texto aqui no læb sobre essa Semana). Entre 1923 e 1925 viveu em Paris, estudou na Academia Ranson e conheceu Picasso, Léger e Matisse. Voltou pintando o que ficou como marca dele: carnaval, samba, mulatas, o cotidiano brasileiro em cores vibrantes e formas sinuosas, de Samba, de 1925, a Cinco moças de Guaratinguetá, de 1930. Morreu em 1976, aos 79 anos. Para mim, a fragmentação das figuras nessas duas telas conversa com o vocabulário que ele trouxe de Paris.
Sarah Morris, na Galeria Danielian: Airbags Rio

Uma tela quadrada, de grande escala, dividida em quartos de círculo que se encaixam em torno de um centro: turquesa, laranja, verde-limão, preto, ameixa, um azul-lavanda e um branco que quase se confunde com a parede, todos contornados por um fio laranja. A superfície é lisa e brilhante, sem vestígio de pincel.
Sarah Morris nasceu em 1967, em Sevenoaks, na Inglaterra, e estudou na Brown University antes do programa de estudos independentes do Whitney Museum. Pinta e filma, e trata as duas coisas como partes do mesmo trabalho. A partir de 1997, mais ou menos, suas pinturas passaram a ser grades geométricas modernistas de planos de cor chapada, muitas vezes tiradas da arquitetura de vidro das cidades: Midtown, Miami, Los Angeles, Capital. Ao Rio ela dedicou, em 2012, um filme de 88 minutos, que passa por vendedores ambulantes, operários e a praia de Ipanema, e uma série de pinturas em tinta doméstica brilhante sobre tela, mostradas juntas em Bye Bye Brazil, na White Cube, em Londres, em 2013. As fontes dela para o Rio incluem o Sambódromo de Niemeyer, o paisagismo de Burle Marx, Lina Bo Bardi, as capas de disco da bossa nova, as barracas de suco de fruta e as cadeiras de praia. A obra que vi na Danielian traz a cidade no título: Airbags Rio.
Uma pintora inglesa que lê o Rio pela arquitetura e pelo desenho gráfico, com o rigor de plano e de cor que a tradição da Bauhaus ensinou a olhar.
Osvaldo Carvalho, na Janaina Torres Galeria

Duas telas empilhadas numa parede vermelha. Na de cima, um homem de colete com a inscrição “Apoio ao trânsito” está sentado num ponto de ônibus, e no abrigo, colado como cartaz, aparece o anúncio da própria ArtRio, com o endereço da Marina da Glória: a feira dentro da pintura, exposta na feira. Na de baixo, um entregador com a mochila vermelha do iFood atravessa uma faixa de pedestres numa bicicleta laranja de aluguel, diante de uma fachada azul de arcos brancos. Obra que leva o título “Empreendedor 05”.
Osvaldo Carvalho nasceu em Niterói, em 1976, e trabalha no Rio, na Zona Norte. A galeria o descreve como um arqueólogo do seu tempo: ele parte de imagens da cultura de massa, como cinema, mídia, internet, quadrinhos e publicidade, e as empilha em telas densas, com figuras humanas, animais, objetos domésticos, paisagens urbanas e grafites, em acrílica sobre tela e papel. Os temas recorrentes são a identidade negra e indígena, a desigualdade social e a violência urbana. Entre as séries dele estão Terra Prometida (2013 a 2017), Fabulário (2011 a 2013), Balada (2019 a 2023, com cápsulas de munição encontradas) e, em 2024, Calçadões Cariocas. Na exposição Falsa Simetria, de 2023, explorou assimetrias na pintura, com perspectivas distorcidas, cores “erradas” e divisões desproporcionais, para apontar desequilíbrios sociais e ambientais.
Jota, “Feijoada de domingo”

Uma cena de fim de tarde num terraço aberto sobre a cidade. Cadeiras brancas de plástico, gente conversando, um casal em pé, celulares erguidos, e à direita um homem de regata branca que olha para quem olha a tela e sorri. O céu vai do azul ao amarelo atrás do muro.
Jota é Johny Alexandre Gomes, cria do Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio. Começou a desenhar cedo, trabalhou como ajudante de obra antes de se dedicar à arte e conta que um amigo, o Charlinho, o incentivou a levar o desenho a sério. Pinta também em skates, papelão e objetos encontrados, e a vida na favela aparece nos temas e em símbolos de espiritualidade e resistência, como anjos em chamas. Fez a primeira individual em 2021, participou de Histórias Brasileiras, no MASP, de Dos Brasis, no Sesc, e de FUNK: Un cri de Liberté, em Lille, na França. Em 2024 mostrou Dream Under Construction em Milão, na Galleria Mimmo Scognamiglio, e em 2025 fez Amor Ódio na MT Projetos de Arte, no Centro do Rio. Já esteve na ArtRio antes: a Agência Brasil o fotografou na feira, na Marina da Glória, em 2022. Ao falar das histórias que registra, ele mesmo já citou a feijoada de família num domingo tranquilo.
Da máscara ao rosto descoberto
Em 2021, atravessei a feira de máscara, me despedindo do Brasil. Em 2026, atravessei de rosto descoberto, de volta, e a ArtRio me recebeu como sempre recebeu: galerias no melhor nível e conhecidos em cada corredor. Sete obras ficaram comigo. Quais delas ficariam com você?








