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Vilanova Artigas e o prédio da FAU-USP

Em7 de agosto de 2026 porGuga Venancio 0 Comments
Arquitetura
brutalismo escola paulista FAU-USP São Paulo Vilanova Artigas

Não existe uma porta que separe a sala de aula do vazio central do prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Não existe, a rigor, muita coisa que separe qualquer nível de qualquer outro: os seis pavimentos são costurados por rampas largas, de inclinação suave e variável, não por escadas fechadas em caixa, e o resultado é que de quase qualquer ponto do edifício dá pra ver, ou pelo menos sentir, o que está acontecendo vários metros abaixo ou acima. O próprio Vilanova Artigas resumiu a intenção numa frase que gosto de repetir: “a pessoa não sabe se está no primeiro andar, no segundo ou no terceiro”. Não é imprecisão de projeto, é o projeto inteiro.

Um edifício pensado como continuidade, não como corredor

O projeto é de 1961, assinado por Artigas ao lado de Carlos Cascaldi, com quem dividia escritório desde os anos 1950. A obra começou em 1966 e terminou em 1969, num momento em que a reforma universitária brasileira do início da década discutia, na prática, como o ensino superior deveria organizar o conhecimento entre disciplinas que até então viviam isoladas.

A resposta espacial dos dois arquitetos foi radical pros padrões da época: em vez de dividir o programa em blocos e pavilhões separados, como praticamente toda faculdade brasileira fazia, concentraram tudo num único volume de seis níveis conectados por rampas, em torno de um grande vazio central. A ideia era gerar continuidade espacial real, quase um plano único dobrado sobre si mesmo, pra aumentar o encontro entre alunos de anos e disciplinas diferentes. Concreto aparente, vidro, estrutura exposta, nenhum acabamento escondendo como a construção foi feita, no vocabulário que ficou conhecido como brutalismo paulista. Um edifício pensado, antes de qualquer estilo, como convicção pedagógica: a aposta de que o cruzamento inesperado entre pessoas produz tanto aprendizado quanto qualquer sala de aula fechada, talvez mais.

Uma escola paulista respondendo a perguntas diferentes da escola carioca

A chamada escola paulista, de Artigas e depois de Paulo Mendes da Rocha, se formou em contraste direto com a escola carioca de Niemeyer e Lúcio Costa, cada uma respondendo a uma pergunta diferente sobre o que a arquitetura brasileira deveria priorizar. A vertente carioca, que descrevi ao escrever sobre a Casa das Canoas, investiga principalmente uma questão de forma, a curva livre, a sensualidade do desenho. A escola paulista investiga principalmente uma questão de programa: pra quem se constrói, e com qual responsabilidade social.

A FAU-USP é o manifesto construído dessa segunda pergunta. Não existe curva sensual nesse prédio, existe ângulo reto, concreto sem disfarce, e uma insistência quase teimosa em que a forma sirva a um projeto coletivo de educação, não a uma ideia pessoal de beleza. É o mesmo espírito que, alguns anos depois, levaria discípulos diretos de Artigas, como Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, a fundar o Grupo Arquitetura Nova, radicalizando ainda mais essa preocupação com o canteiro de obras e a condição de quem constrói.

1969, o ano em que o prédio nasceu e Artigas foi cassado

Em 1969, o mesmo ano em que a FAU-USP ficou pronta, o Ato Institucional número 5 já estava em vigor havia mais de um ano, e Vilanova Artigas, militante do Partido Comunista Brasileiro desde a juventude, foi cassado pelo regime militar, perdendo os direitos políticos e o cargo na própria faculdade que tinha acabado de projetar. Viveu exilado no Uruguai por um período, afastado do país e da escola que dava forma física às suas convicções pedagógicas havia menos de um ano. Só voltaria à FAU dez anos depois, com a lei da anistia, retomando o cargo de professor que tinha sido interrompido.

É difícil separar essas duas informações depois de conhecê-las juntas. Um edifício que aposta fisicamente na ideia de que conhecimento se produz em espaço aberto, em circulação livre entre pessoas diferentes, fica pronto no exato ano em que seu autor tem a própria liberdade de circular e ensinar cassada pelo Estado. A arquitetura ficou aberta. O arquiteto, por um tempo, foi silenciado. Mas o edifício continuou de pé, continuou sendo usado, continuou formando gerações de arquitetos mesmo com o nome de quem o desenhou provisoriamente apagado dos registros oficiais da faculdade.

O reconhecimento que veio depois

O prédio foi tombado em 1982 pelo Condephaat, o órgão de patrimônio histórico do estado de São Paulo, ainda em vida de Artigas, que morreria três anos depois, em 1985. Nesse mesmo ano de 1985, o edifício recebeu o Prêmio Jean Tschumi, concedido pela União Internacional dos Arquitetos em reconhecimento à contribuição da obra pro desenvolvimento tecnológico da arquitetura, um dos poucos prêmios internacionais dessa magnitude conquistados por um edifício brasileiro naquela década. Gosto de pensar nesses dois reconhecimentos, o tombamento e o prêmio internacional, como uma espécie de resposta tardia e silenciosa ao próprio silenciamento que Artigas sofreu quinze anos antes: a mesma obra que nasceu no ano da cassação termina sendo celebrada, oficialmente, como um dos edifícios mais importantes da arquitetura brasileira do século vinte.

O que fica

O que mais me interessa na FAU-USP não é só a solução formal das rampas, embora ela sozinha já bastasse pra explicar a importância do prédio. É perceber como um edifício pode carregar, ao mesmo tempo, uma convicção pedagógica sobre como pessoas deveriam aprender juntas e uma camada de história política que nenhuma foto de arquitetura consegue registrar sozinha.

Ainda hoje, décadas depois, estudantes continuam usando o vão central da FAU-USP pra assembleia, pra debate, pra encontro, exatamente do jeito que Artigas queria que espaço nenhum daquele prédio fosse usado só pra uma coisa. O edifício segue fazendo, todo santo dia, o que foi projetado pra fazer: continuar sendo lugar de encontro e de fala livre, a mesma liberdade que, por um tempo, foi negada a quem o desenhou.

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