O que é o Parangolé de Hélio Oiticica?
Pendurado num cabide de galeria, um Parangolé é só um pano dobrado, uma capa colorida sem graça nenhuma. A obra só nasce de verdade quando alguém veste aquilo e começa a se mover, de preferência dançando, porque é o movimento do corpo que revela as camadas de tecido, as cores escondidas por dentro, as frases escritas que só aparecem quando a pessoa gira. Hélio Oiticica batizou essa ideia de “totalidade-obra”: a peça, o corpo e o movimento juntos, nenhum dos três funcionando sozinho.
Um nome encontrado na rua
A palavra Parangolé nem foi inventada por Oiticica. Em 1965, ele viu uma construção improvisada erguida por um morador de rua, feita de estacas de madeira e cordões amarrados, e num pedaço de juta conseguiu ler a palavra “parangolé” escrita ali. Adotou o termo na hora pra nomear a série de obras que já vinha desenvolvendo, atraído pelo som da palavra e pela origem popular e anônima dela, bem distante do vocabulário erudito que normalmente batiza movimento de arte.
Do concretismo ao neoconcretismo
Pra entender por que o Parangolé foi uma aposta tão radical no Rio de Janeiro do início dos anos 1960, ajuda voltar ao Manifesto Neoconcreto, publicado em 21 de março de 1959, no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, escrito por Ferreira Gullar e assinado por Amílcar de Castro, o próprio Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis. O texto rejeitava a ênfase exclusiva em racionalidade e objetividade do concretismo mais ortodoxo, praticado com rigor matemático pelo Grupo Ruptura em São Paulo, e propunha no lugar uma arte entendida como organismo vivo, orgânica, subjetiva, sentida pelo corpo inteiro, não só decifrada pelo olho.
Oiticica ingressou formalmente no grupo neoconcreto pouco depois da publicação do manifesto fundador, e passou a levar esse princípio, arte como organismo vivo, ao limite físico que nenhum outro signatário chegou a explorar: se a obra precisa de experiência subjetiva pra existir de verdade, por que não fazer da experiência corporal, do movimento, da dança, o próprio material da obra?
A Mangueira e o nascimento do Parangolé
Em 1964, Oiticica começou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tornou-se passista de fato, não visitante ocasional de fim de semana, e essa imersão real, vivida por dentro, alimentou diretamente o desenvolvimento dos Parangolés como peças pensadas pro corpo em samba, não pra parede de galeria. Foi ali, dançando ao lado de mestres da escola, que Oiticica entendeu na prática o que já intuía na teoria: cor e forma fazem mais sentido em movimento do que paradas.
Na exposição Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio, ele apresentou os Parangolés pela primeira vez ao público, ao lado de passistas de verdade da Mangueira, mestre Miro, Nildo, Jerônimo, Tineca, Mosquito, Robertinho, Nininha Xoxoba, além do próprio Oiticica, todos vestindo as capas dele. Não era performance contratada pra ilustrar um conceito, era gente da escola de samba que ele conhecia de fato, dançando peças feitas pensando exatamente nelas.
A noite em que o museu barrou os passistas
Quando o grupo chegou ao museu pra abertura, a direção do MAM não permitiu a entrada dos dançarinos e músicos, alegando o barulho de pandeiros, tamborins e instrumentos de percussão. Oiticica, furioso com a barreira imposta aos próprios colaboradores da obra, protestou e acabou expulso do museu junto com eles. O grupo terminou fazendo a manifestação artística do lado de fora, na calçada, na porta do MAM, em vez de dentro da sala que deveria recebê-los.
É uma cena que resume bem a tensão que Oiticica passou a vida atravessando: uma instituição de arte moderna disposta a expor o trabalho de um artista branco de classe média inspirado na cultura popular carioca, mas ainda não pronta pra deixar essa mesma cultura popular, encarnada em corpos negros e pobres reais, entrar fazendo barulho pela porta da frente. A primeira apresentação pública dos Parangolés, ironicamente, aconteceu na rua, não dentro do museu, o que talvez seja a coisa mais coerente que poderia ter acontecido com uma obra que só existe em movimento.
Tropicália, o nome que ficou
Em 1967, Oiticica apresentou no MAM a instalação Tropicália, um ambiente penetrável com areia, espadas-de-são-jorge, plantas, um aparelho de televisão ligado, cheiros diferentes, pensado pra ativar todos os sentidos de quem entrasse, não só a visão. O título sugerido a Caetano Veloso pelo diretor de fotografia Luís Carlos Barreto, inicialmente tratado como provisório pelo próprio Caetano, acabou colando de vez e batizando ao mesmo tempo a música e a instalação visual, um dos raros casos em que um nome de obra plástica vira nome de movimento musical inteiro.
O que fica
O que mais me interessa na trajetória de Oiticica é a coerência entre o que ele defendia na teoria e o que ele exigia na prática: se a arte é organismo vivo, ela precisa do corpo inteiro pra existir, do suor de quem dança, do som do pandeiro, da rua tanto quanto da galeria. É fácil, hoje, admirar um Parangolé pendurado atrás de vidro num museu, parado, exatamente a condição que a obra nasceu pra recusar. Mais interessante é lembrar que a primeira vez que essas capas dançaram de verdade, foi na calçada, com gente da Mangueira vestindo cor e movimento como quem sempre soube que arte também se dança.








