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Quem é Tom Sachs, o artista do Space Program

Em16 de agosto de 2026 porGuga Venancio 0 Comments
Artes
arte contemporânea bricolagem Space Program Tom Sachs wabi-sabi

Existe uma foto que resume Tom Sachs melhor do que qualquer texto sobre ele: uma bancada de ferramentas organizadas em ângulo reto perfeito, cada parafuso, cada rolo de fita, alinhado com precisão quase militar, ao lado de um módulo lunar da Apollo construído em compensado e aço, parafusos à mostra, aresta de madeira sem disfarce nenhum. A mesma disciplina obsessiva que organiza a bancada é a que constrói o módulo. Rigor total aplicado a material humilde, sem nenhuma vergonha de mostrar como a coisa foi montada.

Um artista formado em bricolagem

Sachs nasceu em 1966, passou brevemente pela Architectural Association de Londres em 1987 e se formou no Bennington College em 1989. O material dele é sempre o mesmo: compensado, fita adesiva, cola quente, espuma, parafuso à mostra. A técnica se chama bricolagem, montagem com o que está à mão em vez de fabricação industrial invisível, e o que separa isso de um trabalho amador é a disciplina real por trás dela, documentada num guia próprio de ética de estúdio chamado Ten Bullets, com regras como estar sempre no horário, capricho conta mais do que parece, persistência, e a mais paradoxal de todas, a criatividade é a inimiga, uma regra que existe justamente pra impedir que qualquer assistente decida improvisar fora do sistema estabelecido. Existe até uma caixa de indulgências no estúdio, onde quem comete um erro precisa admitir a falha publicamente e pagar uma multa simbólica. É bricolagem tratada com o rigor de uma linha de produção, não com a liberdade caótica que a palavra costuma sugerir.

O knolling não nasceu com ele, mas foi ele quem ensinou o mundo

Um dos hábitos mais associados a Sachs é o de organizar ferramentas e objetos em ângulo reto perfeito sobre uma superfície antes de fotografar. Tem nome, knolling, e a origem dele é uma das histórias mais bonitas de toda essa cena: o termo nasceu em 1987, cunhado por Andrew Kromelow, faxineiro do estúdio de Frank Gehry em Santa Monica, que organizava as ferramentas dessa forma no dia a dia e batizou o hábito em referência aos móveis angulares do designer Florence Knoll.

Sachs trabalhava no mesmo estúdio na época, aprendeu a prática ali, e décadas depois foi quem a levou ao mundo inteiro, primeiro num vídeo interno chamado Working to Code, depois consolidada em Ten Bullets, com a instrução direta sempre esteja fazendo knolling. Gosto de registrar essa origem porque ela dá ainda mais camadas à prática: nasceu de um faxineiro tentando manter a oficina organizada, virou linguagem visual reconhecível internacionalmente pela mão de um artista que soube ver valor estético no que já era, na origem, puro hábito funcional de limpeza.

O Space Program: a NASA feita de compensado

O projeto mais longo e mais conhecido de Sachs é o Space Program, mais de quinze anos recriando missões espaciais inteiras, uma delas atrás da outra: começou com a Lua, seguiu para Marte, depois para Europa, a lua gelada de Júpiter, e mais recentemente para o asteroide 4 Vesta. Cada missão inclui uma réplica em escala real de módulo lunar ou espaçonave, construída em compensado e aço, encenada como missão completa, com controle de missão, trajes espaciais improvisados e protocolo simulado a sério.

Não é maquete de museu parada, é performance funcional: gente vestindo o traje e operando o módulo como se a missão fosse real, usando material de ferragem em vez de liga aeroespacial. É a mitologia da conquista espacial reencenada com o orçamento e os materiais de uma oficina de marcenaria, sem perder o peso simbólico do original, e sem esconder em nenhum momento que aquilo é feito de madeira e fita adesiva.

A Cerimônia do Chá

Uma das séries menos conhecidas de Sachs, mas uma das que mais gosto, é a Tea Ceremony, exibida inclusive no Museu Noguchi, em que ele desconstrói o chanoyu japonês tradicional usando o próprio vocabulário material que já usa em tudo: casa de chá construída em compensado e espuma de isolamento à mostra, bordas pintadas de vermelho e branco como fita de barreira de obra, teto de metal corrugado.

Ele mesmo definiu wabi, em entrevista, como o senso de beleza que celebra a luta, o gesto simples e imperfeito de fazer alguma coisa, uma definição que dialoga direto com a mesma tradição que descrevi ao escrever sobre wabi-sabi e Sen no Rikyū, só que traduzida para o vocabulário industrial americano, fita adesiva e parafuso no lugar de bambu e laca. A cerimônia do chá tradicional busca beleza na simplicidade rústica de material nobre lapidado com humildade. Sachs busca a mesma beleza usando o material mais comum da construção civil americana, uma tradução talvez tão honesta do espírito wabi quanto qualquer reprodução literal em madeira nobre importada.

O que fica

O que mais admiro em Sachs não é a piada superficial de fazer réplica de marca de luxo em compensado, embora ele também faça isso, é a disciplina real por trás da bagunça aparente: rigor de knolling aplicado à ferramenta, rigor de protocolo aplicado à missão espacial simulada, rigor de humildade material aplicado a uma tradição japonesa de quinhentos anos, tudo com o mesmo compromisso de deixar o processo visível em vez de escondido atrás de acabamento perfeito.

É bricolagem levada tão a sério quanto qualquer ofício tradicional, e talvez essa seja a contribuição mais subestimada dele: provar que material humilde e disciplina rigorosa não são posições opostas, são a mesma coisa, dependendo de quanto compromisso alguém está disposto a aplicar ao parafuso à mostra.

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