O Ibirapuera não tem paisagismo de Burle Marx, e isso quase ninguém sabe

Toda vez que alguém descreve o Parque Ibirapuera, a frase sai automática: projeto de Niemeyer, paisagismo de Burle Marx. Repeti essa frase eu mesmo por anos, até parar para checar, e descobrir que ela está errada. Burle Marx de fato apresentou um projeto paisagístico para o Ibirapuera, em 1953, por iniciativa própria. Só que esse projeto perdeu para outro, do engenheiro agrônomo Otávio Augusto Teixeira Mendes, escolhido pela comissão organizadora das comemorações do IV Centenário de São Paulo. O parque que existe desde 1954 tem a arquitetura de Niemeyer, o cálculo estrutural de Joaquim Cardozo, e o paisagismo de um homem que quase ninguém, fora do círculo especializado, consegue nomear.
Um parque construído contra o relógio
O aniversário de quatrocentos anos da cidade caiu em 25 de janeiro de 1954, e o parque não estava pronto. Só ficaria concluído em agosto daquele ano, sete meses depois da data que deveria comemorar, com 640 estandes montados por treze estados brasileiros e dezenove países para as exposições do centenário. É um detalhe que já diz algo sobre o espírito do projeto inteiro: uma obra pensada em regime de urgência política, para caber num calendário de comemoração cívica, não numa maturação tranquila de projeto. Coube a Niemeyer o desenho dos pavilhões de concreto e da grande marquise que os conecta a todos, um gesto de curva livre em escala urbana, o mesmo vocabulário que ele já vinha desenvolvendo desde Pampulha, agora aplicado não a um edifício isolado, mas a um sistema inteiro de circulação coberta entre construções distintas.
O paisagismo que não é de Burle Marx
Aqui está a parte que mais me surpreendeu pesquisando este texto, porque eu mesmo repetia essa autoria errada até pouco tempo atrás. O anteprojeto de Burle Marx para o Ibirapuera encontrou resistência dentro da comissão organizadora e não convenceu o presidente dela, Francisco Ciccillo Matarazzo Sobrinho, apesar do apoio público de pelo menos uma jornalista especializada da época. Prevaleceu a proposta de Teixeira Mendes, detalhada em oitenta prancheas de plantas, cortes e perspectivas. Burle Marx só voltaria a ter participação formal no parque décadas depois, nos anos 1970, num projeto de reforma da área verde, já bem posterior à inauguração que todo mundo associa ao nome dele.
Não conto isso para diminuir Burle Marx, que segue sendo o paisagista brasileiro mais importante do século vinte em praticamente qualquer outro projeto que assinou de fato. Conto porque acho reveladora a facilidade com que um nome mais famoso absorve, na memória coletiva, o crédito de um trabalho que não fez. É mais fácil lembrar a dupla Niemeyer e Burle Marx, que soa bem, remete a outros projetos reais dos dois juntos, do que lembrar Otávio Augusto Teixeira Mendes, que projetou de fato o chão que qualquer pessoa pisa ao visitar o parque hoje.
O engenheiro que também era poeta
Se o paisagismo tem autoria trocada na memória popular, o cálculo estrutural tem o problema oposto: quase ninguém pergunta quem fez a marquise ficar de pé. A resposta é Joaquim Cardozo, engenheiro pernambucano que começou a trabalhar com Niemeyer em 1943, no complexo da Pampulha, e manteve essa parceria por trinta anos, até os grandes edifícios de Brasília: o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional, o Itamaraty. Sem o cálculo de Cardozo, boa parte da curva que associamos à assinatura de Niemeyer simplesmente não teria sustentação real, ficaria no papel como desenho bonito e inviável.
O detalhe que mais gosto nessa história é que Cardozo também era poeta, publicou livros incentivado por Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, dois dos nomes mais importantes da poesia brasileira do século. Acho isso menos uma curiosidade biográfica engraçadinha e mais uma pista sobre o tipo de inteligência que a arquitetura de Niemeyer exigia para sair do papel: alguém capaz de pensar estrutura com o mesmo rigor de quem também pensa métrica e verso, capaz de calcular a curva sem, no processo, matar a poesia dela.
O que fica
O Ibirapuera me interessa menos pela marquise em si, que já é bonita o suficiente sem precisar de mais elogio, e mais por como o parque inteiro é um estudo de caso sobre como a memória coletiva nem sempre distribui crédito da forma mais justa. Lembramos o nome mais forte da dupla mais famosa, mesmo quando esse nome não fez aquele trabalho específico. Esquecemos o nome do engenheiro sem o qual a curva não ficaria de pé, porque estrutura não é tão fotogênica quanto forma. E raramente perguntamos quem, de fato, desenhou o chão que estamos pisando, presumindo que deve ter sido o paisagista mais famoso disponível na história.
Da próxima vez que atravessar a marquise do Ibirapuera, vou lembrar de Otávio Augusto Teixeira Mendes, que projetou aquele chão, e de Joaquim Cardozo, que fez a curva em cima dele não cair. Gosto de pensar que é a diferença entre admirar um lugar pela história certa e admirar um lugar por uma lenda mais fácil de repetir.








