Joaquim Tenreiro e Jorge Zalszupin: os pioneiros do móvel moderno brasileiro
Duas trajetórias completamente diferentes, um português criado entre Niterói e a região da Guarda, um polonês que atravessou perseguição e guerra antes dos trinta anos, convergem pro mesmo resultado: cada um, à sua maneira, ajudou a inventar o que hoje reconhecemos como móvel moderno brasileiro. Joaquim Tenreiro é chamado, com razão, de pai desse movimento. Jorge Zalszupin é lembrado como um dos maiores nomes da marcenaria autoral que o país já produziu. As duas histórias, contadas lado a lado, mostram como a mesma matéria-prima, madeira nativa brasileira, e a mesma vontade de criar algo além da referência europeia podem nascer de dois caminhos de vida inteiramente distintos.
Tenreiro, o marceneiro que virou referência sem prancheta de arquiteto
A relação de Joaquim Tenreiro com o Brasil começou cedo e de forma intermitente. Nascido em 1906 em Melo, no distrito da Guarda, Portugal, veio pra cá aos dois anos com a família, viveu em Niterói na infância, voltou a Portugal em 1914 ainda criança, e só se mudou de vez, na vida adulta, em 1928. Não teve formação acadêmica em design ou arquitetura, herdou da família o ofício de marceneiro e desenvolveu, ao lado disso, um interesse genuíno por artes plásticas, que o levou a tratar móveis como esculturas em madeira, palha e couro, em vez de peças utilitárias replicáveis em série.
Numa época em que o mobiliário brasileiro majoritariamente reproduzia referência europeia, especialmente o art déco então em voga, Tenreiro desenhou cadeiras e poltronas de linhas mais despojadas, usando palhinha trançada, couro e madeira maciça de um jeito que não existia antes dele por aqui. Uma das peças mais reconhecíveis desse repertório é a cadeira Curva, elegante e minimalista, que resume bem o que tornava seu trabalho diferente: leveza visual construída com honestidade estrutural, sem ornamento supérfluo escondendo a lógica da própria peça. A diferença entre ele e boa parte dos contemporâneos é que Tenreiro chegou a esse resultado sem prancheta de arquiteto, direto da bancada de marceneiro, o que talvez explique por que a obra dele soa menos teórica e mais tátil do que a de outros designers da mesma geração.
Zalszupin, de Varsóvia a São Paulo
A trajetória de Jorge Zalszupin até chegar à marcenaria brasileira é bem mais pesada, e merece ser contada com cuidado, não como curiosidade biográfica que decora um currículo de designer. Nascido numa família judia polonesa em 1922, perdeu a mãe aos dezesseis anos, levada a um campo de concentração em 1940, durante a ocupação nazista de Varsóvia. Fugiu da Polônia para a Romênia junto com o pai, conseguiu estudar arquitetura por lá, seguiu depois para a França, onde trabalhou na reconstrução de Dunquerque no pós-guerra, e só em 1949 imigrou pro Brasil.
Chegou primeiro tentando emprego em escritórios do Rio de Janeiro, e foi com a ajuda do arquiteto Luciano Korngold que se fixou em São Paulo, então em pleno ciclo de crescimento industrial, onde se naturalizou brasileiro. Passou anos trabalhando como arquiteto, projetando móveis exclusivos pra clientes específicos de projetos residenciais, até profissionalizar essa produção em 1959 com a fundação da L’Atelier, oficina dedicada a peças de madeira brasileira refinada, produzidas em pequena série. Zalszupin usou fartamente jacarandá em seus primeiros anos, e quando a espécie começou a escassear, migrou pra peroba do campo, mantendo a mesma linguagem de curvas contínuas e acabamento impecável.
A poltrona apelidada de dinamarquesa
A marca mais reconhecível de Zalszupin é o trabalho com lâmina de madeira moldada, técnica que dá plasticidade a folhas de madeira e permite curvar uma única superfície em geometrias contínuas, usada em peças como as mesas Andorinha e Pétalas. A primeira peça dessa série, uma poltrona de 1959 em jacarandá estofado, pernas finas, foi apelidada pelos próprios funcionários da oficina de Dinamarquesa, numa ironia bonita que ninguém parece ter registrado como tal na época: a peça que ajudaria a definir um vocabulário moderno brasileiro em madeira nativa recebeu, informalmente, o nome de outro país, porque lembrava a limpeza de linhas do design escandinavo então em alta internacionalmente. O desenho dos braços e dos pés dessa mesma poltrona, aliás, ecoa as colunas que Niemeyer projetaria para o Palácio da Alvorada, um sinal de que design de mobiliário e arquitetura, no Brasil daquele período, respiravam o mesmo repertório formal de curvas e leveza estrutural.
Duas linguagens, uma mesma convicção
O que aproxima Tenreiro e Zalszupin, além da coincidência de nenhum dos dois ter nascido em solo brasileiro, é a convicção compartilhada de que a madeira nativa merecia um vocabulário de desenho à altura da matéria-prima. Tenreiro chegou lá pela via artesanal, da bancada pra fora. Zalszupin chegou lá pela via projetual, da arquitetura pra dentro da oficina. Os dois, ao lado de contemporâneos como Sergio Rodrigues, ajudaram a consolidar, entre as décadas de 1950 e 1960, um momento em que o design de móveis brasileiro deixou de ser eco tardio do que já se fazia na Europa e passou a exportar linguagem própria, reconhecida internacionalmente até hoje em peças que seguem sendo procuradas por colecionadores e casas de leilão no mundo inteiro.
O que fica
Gosto de pensar na ideia de uma marcenaria autenticamente brasileira como algo que nunca dependeu de onde cada designer nasceu, dependeu de quem se comprometeu de verdade com a madeira daqui, com as mãos de quem sabia trabalhar essa madeira, com as necessidades reais de quem ia morar entre essas peças. Tenreiro trouxe um ofício herdado de família portuguesa e aplicou a ele tanta dedicação à matéria-prima brasileira que virou referência nacional inquestionável. Zalszupin atravessou perseguição, exílio e reconstrução de guerra antes de encontrar em São Paulo o lugar onde pôde, finalmente, dedicar a vida a fazer madeira curvar em formas que ninguém tinha curvado daquele jeito antes por aqui. As duas trajetórias, olhadas juntas, contam uma versão mais rica do que brasilidade em design sempre significou: menos sobre certidão de nascimento, mais sobre compromisso real com o material e com quem vai viver ao redor dele.








