No SESC Pompeia, o problema virou a obra

Existe um córrego enterrado embaixo do SESC Pompeia. Chama-se Águas Pretas, corre canalizado sob um deque de madeira, e a rigor ninguém que visita o lugar hoje precisa saber que ele está ali. Mas é por causa dele que o complexo esportivo do SESC Pompeia não é um bloco só, é dois blocos de concreto ligados no ar por oito passarelas, cada uma com um desenho diferente, nenhuma alinhada com grade nenhuma. Fui atrás dessa história depois de atravessar uma dessas passarelas pela enésima vez e me perguntar por que raios elas não são iguais entre si. A resposta é que Lina Bo Bardi pegou um problema de terreno e decidiu que ele merecia virar a forma mais expressiva do projeto inteiro, em vez de um detalhe técnico escondido debaixo do piso.
Uma fábrica de tambores que ela decidiu não derrubar
O terreno era uma antiga fábrica de tambores, uma sequência de galpões em estilo inglês do início da industrialização paulistana. Bo Bardi visitou o lugar pela primeira vez em 1976 e, segundo relatos da própria obra, decidiu logo ali manter a estrutura existente, descrevendo os galpões como distribuídos racionalmente segundo os projetos ingleses da época, somados a uma estrutura de concreto que ela já considerava elegante e precursora. A conversão levou de 1977 a 1986, com abertura parcial em 1982 e inauguração completa em 1986. Ela montou o próprio escritório dentro do canteiro de obras durante esse período inteiro, medindo o edifício existente junto com técnicos e operários em vez de trabalhar a distância a partir de uma prancheta.
Essa decisão já diz algo sobre o método dela: a maioria dos projetos daquele porte, num terreno daquele tamanho, teria demolido tudo para erguer um equipamento novo e grandioso do zero. Bo Bardi manteve os galpões praticamente como estavam, rústicos, de tijolo, com pé-direito industrial, e destinou a eles as atividades mais contemplativas do programa: biblioteca, ateliês, teatro, restaurante. O novo, ela concentrou num lugar separado, sem tentar imitar o estilo do que já existia.
O córrego que devia ter sido um problema
O programa também pedia área esportiva, ginásio, piscina, quadras, o que exigia um volume bem maior do que os galpões baixos permitiam. Só que bem no meio do terreno reservado para essa parte passava o córrego das Águas Pretas, criando uma faixa non aedificandi, área onde simplesmente não se pode construir por cima. A solução óbvia seria canalizar o córrego, aterrar tudo e erguer um bloco único, fingindo que o obstáculo nunca existiu. Não foi o que ela fez.
Bo Bardi ergueu duas torres de concreto separadas por essa faixa, uma maior com cinco pavimentos de pé-direito alto para os esportes, outra menor, e ligou as duas por oito passarelas aéreas de concreto protendido aparente, suspensas sobre o córrego canalizado. Cada passarela nasce de uma mesma abertura na torre menor e se ramifica até duas aberturas simétricas na torre maior, formando ângulos que variam de uma para outra, algumas mais abertas em V, uma quase em Y. O resultado é que a restrição de engenharia, em vez de escondida, virou o elemento mais fotografado e mais lembrado do conjunto inteiro. A imagem que qualquer pessoa guarda do SESC Pompeia depois de visitar não é uma parede, é esse emaranhado de pontes de concreto cruzando o vazio entre dois blocos.
Aberturas que não obedecem grade nenhuma
A mesma lógica se repete nas janelas da torre maior, os vãos que ficaram conhecidos como aberturas amebóides, formas orgânicas e irregulares, distribuídas pela fachada sem alinhamento ortogonal, quase como se o concreto tivesse sido roído em vez de furado com régua. É um vocabulário formal que se recusa deliberadamente à grade modernista mais ortodoxa, aquela herdada em linha reta de Le Corbusier e do racionalismo europeu. Onde a tradição pedia módulo e repetição, Bo Bardi respondeu com irregularidade proposital, uma arquitetura que parece ter crescido por conta própria em vez de ter sido calculada numa prancheta com esquadro.
Não é o único edifício brasileiro a fazer isso, mas é um dos que faz isso com mais convicção, e acho que é exatamente essa recusa da grade fácil que separa o SESC Pompeia de tanta arquitetura brutalista que só copiou a textura do concreto aparente sem entender que a força do brutalismo nunca esteve na aspereza do material, estava na honestidade de deixar a estrutura e as decisões de projeto visíveis, inclusive as decisões estranhas, inclusive um córrego que insiste em aparecer como duas torres separadas por pontes tortas.
O que fica
O que fico pensando, sempre que releio essa história, é como a restrição de terreno de Bo Bardi virou repertório, e como isso é o oposto do que normalmente acontece em qualquer projeto, arquitetônico ou não. A reação padrão diante de um obstáculo é neutralizá-lo, escondê-lo, resolver o problema da forma mais discreta possível para que ninguém perceba que ele existiu. O SESC Pompeia faz o inverso: expõe o córrego, expõe a costura entre o galpão velho e a torre nova, expõe cada ângulo diferente das oito passarelas, como se dissesse abertamente que aquele lugar teve uma história de obstáculos reais e não tem nenhuma vergonha disso. (É o mesmo instinto que encontrei ao escrever sobre o MASP: Bo Bardi prefere expor a decisão difícil a escondê-la.)
É um jeito de projetar que exige confiar que o visitante consegue lidar com a imperfeição visível, com a costura aparente, em vez de precisar de uma superfície lisa e sem história para se sentir num lugar bem resolvido. Continuo achando essa a lição mais transferível do SESC Pompeia para qualquer escala de projeto, de um museu inteiro até uma sala de estar: o problema do terreno, ou do espaço, quase nunca precisa ser escondido. Às vezes ele é a única parte do projeto que ninguém mais teria pensado sozinho.









Pingback: O MASP tem duas obras-primas, e a mais importante não é o vão livre - Proporção Áurea