O MASP tem duas obras-primas, e a mais importante não é o vão livre

Toda vez que alguém fotografa o MASP, fotografa a mesma coisa: a caixa suspensa entre os dois pórticos vermelhos, vista de baixo, com a Avenida Paulista cortando o quadro. É uma imagem tão repetida que virou logotipo da própria cidade, ao lado do Copan e do Ibirapuera. E é, de fato, um feito de engenharia que merece a fama. Mas fiquei pensando, da última vez que atravessei aquele vão, que a decisão mais radical de Lina Bo Bardi nesse edifício não é a que todo mundo fotografa. É a que fica um andar acima, dentro da pinacoteca, e que durante quase vinte anos simplesmente não existiu.
A obra que todo mundo já viu de fora
Os números, só para registrar, são de fato impressionantes. O projeto começou em 1957 e o museu foi inaugurado em 7 de novembro de 1968, com um vão livre de 74 metros sustentado por dois pórticos de concreto protendido, sem nenhum pilar central. Na época, era o maior vão livre do mundo num edifício suspenso. John Cage, ao visitar, chamou aquilo de arquitetura da liberdade, referindo-se à indeterminação do espaço por baixo, aberto para qualquer uso que a cidade quisesse dar a ele.
E deu. O vão do MASP virou feira de antiguidades aos domingos, palco de manifestação política, ponto de encontro, praça coberta no meio da avenida mais cara do país. Esse é o gesto mais citado da Bo Bardi ali, suspender o museu para devolver o chão à cidade, e é um gesto que sustento como genuinamente radical, não decorativo. Vale registrar um detalhe que corrige um pouco o cartão-postal: os pórticos não nasceram vermelhos. Eram cinza, concreto aparente, e só foram pintados na década de 1990. A cor que hoje lemos como parte inseparável da identidade do edifício é, na verdade, uma intervenção posterior. Não acho isso um problema, o vermelho funciona, comunica estrutura e força melhor que o cinza original faria. Mas é bom lembrar que até o elemento mais icônico de uma obra pode ser uma camada adicionada depois, não a intenção original do arquiteto.
O museu que se recusa a ter paredes
A decisão que realmente me interessa fica dentro. Bo Bardi projetou, para a pinacoteca, um sistema expositivo sem paredes divisórias: cavaletes de vidro autoportante, com uma cunha de madeira e uma base de concreto, espalhados livremente pelo grande salão aberto. As telas ficam presas ao vidro, suspensas no ar, sem moldura de parede, sem sequência curatorial obrigatória. Quem entra decide o próprio caminho entre os quadros, vê o verso de uma tela ao passar pela outra, cruza séculos e escolas sem que ninguém tenha decidido essa ordem por você antes.
Isso não é um capricho estético. É uma posição sobre o que é um museu. A disposição tradicional em paredes, com legenda ao lado de cada obra, ensina o visitante a ler antes de olhar, a saber o nome do pintor antes de decidir se a pintura importa. Os cavaletes de Bo Bardi invertem essa hierarquia: a ficha técnica fica atrás do vidro, visível só depois que você já parou diante da imagem. É uma arquitetura que desconfia da autoridade do próprio museu, o que é uma posição bastante incomum para um museu ter sobre si mesmo.
Vinte anos sem cavaletes
E aqui está a parte que menos aparece nas fotos de Instagram do MASP: em 1996, sob outra direção, os cavaletes foram retirados, com a justificativa de que danificavam as telas, e o acervo passou a ser exibido do jeito convencional, em paredes, por ordem cronológica. Ficou assim por quase vinte anos. Só em dezembro de 2015, sob nova direção artística, os cavaletes foram reconstruídos e reincorporados, não como gesto nostálgico, mas como revisão crítica que devolvia ao museu o programa museológico original de Bo Bardi.
Acho esse episódio mais revelador do que qualquer elogio ao vão livre. Uma geração inteira de paulistanos visitou o MASP sem nunca ver a parte da obra que a própria arquiteta considerava sua contribuição mais importante para a museologia, e ninguém no meio do caminho achou isso estranho o suficiente para reverter antes. O prédio continuava lá, fotografável, icônico, rendendo a mesma imagem de cartão-postal. O que tinha sido silenciosamente apagado era a ideia dentro dele, a parte que não cabe numa foto de vão livre contra o pôr do sol.
O que fica
Não escrevo isso para diminuir o vão livre, que continua sendo uma das coisas mais bonitas que a arquitetura brasileira já fez com concreto e ar. Escrevo porque a história dos cavaletes me parece um lembrete específico sobre como julgamos edifícios importantes: tendemos a proteger a silhueta e esquecer o argumento. É fácil defender um prédio da demolição. É bem mais difícil perceber quando o conteúdo de uma ideia arquitetônica foi esvaziado por dentro, enquanto a fachada permanece intacta e continua sendo aplaudida. (Escrevi separadamente sobre o SESC Pompeia, outra obra em que Bo Bardi faz algo parecido: expor a decisão difícil em vez de escondê-la.)
Da próxima vez que passar pelo vão livre do MASP, ainda vou olhar para cima, para os pórticos vermelhos que nem são os originais. Mas vou subir logo em seguida para ver os cavaletes, que são a parte que quase perdemos de vez, e que continua sendo a pergunta mais honesta que um museu já fez sobre a própria autoridade.








